20 de agosto de 2015

Relato: Travessia Itumirim - Carrancas/MG

Quando fiz a Travessia da Serra do Papagaio em 2011 era possível ver do topo do Pico do Papagaio e em alguns trechos dessa caminhada uma serra longitudinal que se elevava bem ao norte. E quando voltei para SP fui consultar as cartas topográficas da região para saber o nome dela: era a Serra de Carrancas e me atiçou a curiosidade de um dia fazê-la de um extremo ao outro (leste a oeste), mas os anos se passaram e fui deixando de lado. E em 2013 fui fazer com o Rodrigo e a Rosana (velhos amigos de caminhada) a Travessia Lapinha-Tabuleiro
Era minha primeira caminhada que foi feita totalmente em área de cerrado e campos rupestres e de lá só trouxe boas recordações, por isso prometi a mim mesmo que voltaria a fazer uma caminhada nesse tipo de vegetação se tivesse outra oportunidade e ela surgiu em 2015. 


Foto acima mostrando a trilha pela crista da Serra da Estancia


Fotos dessa travessia: clique aqui

Vídeo-resumo de toda a caminhada com trilha sonora do Pink Floyd, em HD: clique aqui

Tracklog para GPS: clique aqui

Criei vários vídeos ao longo dessa caminhada; o 1º deles é esse, também em HD: clique aqui






Serras do Campestre e da Bocaina ao fundo
E com Julho chegando, fiz uma lista dos lugares que pretendia caminhar naquele mês. O primeiro, que já vinha tentando fazer a vários anos, mas nunca dava certo era a Serra do Quiriri, na divisa PR/SC. 
E para variar, esse ano também não daria, já que na região sul estava chovendo a vários dias, deixando até algumas cidades embaixo d’água e com isso tive que partir para o Plano B, que era a travessia pelo cerrado na Serra de Carrancas. 
Definido o lugar da caminhada, fui pesquisa-la no Google e a maioria dos relatos que encontrei detalhavam a Travessia Itutinga - Carrancas, que passava por 3 serras: Pombeiro, Galinheiro e de Carrancas em um circuito em forma de “C“. 
Circuito em Z
Olhando as cartas topográficas da região nota-se que entre Lavras e Carrancas se elevam várias serras: a da Bocaina, Campestre, Estancia, Pombeiro, Galinheiro e Carrancas, porém o que mais chama a atenção é o formato do circuito que elas formam: em “Z“, sendo que a Bocaina, Campestre, Estancia e Pombeiro formam uma sequencia única de serras. Já um pequeno trecho da Serra do Pombeiro e a do Galinheiro formam o outro trecho, enquanto a Serra de Carrancas finaliza o circuito. 
Pensei comigo: se desse para fazer todas as 6 serras juntas, seria uma linda caminhada e o que é melhor: sempre pelo cerrado, alternando com campos rupestres e vegetação de gramíneas.
Início da Serra da Estancia
Mas era longa demais e eu não dispunha de tantos dias para fazê-la - creio que o ideal é de 4 a 5 dias. Mas tinha uma saída: eliminar as Serras da Bocaina e Campestre, iniciando a caminhada por Itumirim, que é uma cidade vizinha de Lavras.
Dessa forma dava para fazer o circuito em Z começando pela Serra da Estancia e totalizando uns 3 a 4 dias pelas 4 serras.
E com uma bela vantagem: saindo de Itumirim até a base da Serra da Estancia, a caminhada seria pela linha férrea, ainda ativa e usada pela empresa FCA/VLI (Ferrovia Centro-Atlântica, do grupo VLI); bem melhor do que uma caminhada pelo asfalto.
A data que eu tinha disponível era do dia 20 a 23 de Julho (exatamente Segunda a Quinta-feira), inviabilizando qualquer tentativa de encontrar alguém que encarasse essa travessia no meio da semana. 
Restaurante Graal na Rodovia Fernão Dias

Já estando em uma cidade no sul de MG, o acesso até Lavras não seria complicado. Segui em um ônibus da Viação Gardênia em direção a BH, desembarcando no Posto/Restaurante do Graal, na Rodovia Fernão Dias, próximo do trevo de Lavras por volta das 12:00 hrs do dia 20/07. 
Do posto segui em outro ônibus da empresa São Cristóvão que me deixou na Rodoviária de Lavras, chegando por volta das 13:00 hrs e lá adquiri a passagem para Itumirim, saindo as 14h30min, sendo a mesma linha de ônibus que segue para Carrancas.
O ônibus saiu no horário e as 15h10min estava desembarcando em frente da Igreja Matriz de Itumirim, onde desceram apenas 3 pessoas.

Caminhada pela linha férrea
Por descer em frente as escadarias da Igreja, resolvi conhece-la por dentro e pedir proteção pelos próximos dias e em seguida desci uma rua à esquerda da praça, chegando na Estação Ferroviária da cidade, que parece ser usada somente como passagem dos trens de carga e naquele momento uma locomotiva com vários vagões aguardava em uma linha secundária. Depois de alguns clics inicio a caminhada pelos dormentes às 15h15min em direção ao Cânion do Rio Capivari, onde fica o acesso à crista da Serra da Estancia. 
O Sol é muito forte, mas como estou bem disposto, a caminhada é tranquila, seguindo próximo do Rio Capivari, que às vezes surgia do lado direito com pequenas cachoeiras e praias de água doce. 
Aos 15 minutos de caminhada uma locomotiva com vários vagões de carga passa por mim vindo na direção contraria e conforme vou avançando, a crista da Serra da Estancia já se destaca na paisagem ao fundo, mas só vou chegar no topo dela no dia seguinte.
Trem de carga

Interessante destacar que a serra não apresenta escarpas, os chamados paredões e seus topos são arredondados permitindo chegar na crista por vários lugares. 
Uns 30 minutos depois do trem de carga, agora surge outro que vem de Itumirim e segue na direção da serra (veja nesse vídeo).
Ao chegar no cânion do Capivari, a linha férrea vai rasgando a serra de norte a sul por um trecho estreito. O rio está do lado direito, mas no fundo do cânion e junto dele existe uma encosta bem íngreme, que é o final de uma outra serra, a do Campestre. É aqui se inicia a Serra da Estancia, do lado esquerdo.
Junto da linha férrea encontro uma pequena nascente, onde um cano de água desce do alto da Serra da Estancia e aqui reabasteço os cantis porque não sei se o local onde vou acampar encontrarei água potável. Algumas cachoeiras e corredeiras surgem no rio, mas é muito arriscado descer ate lá, já que a encosta é muito íngreme. 
Cânion do Rio Capivari
Para os mais corajosos existe no fundo do cânion a Cachoeira do Funil, onde o acesso mais seguro parece ser pelo outro lado do rio. 
Assim que termino esse trecho do cânion a paisagem se abre e do lado esquerdo encontro uma pequena porteira de ferro. 
São 17:00 hrs e é aqui que saio da linha férrea e entro na trilha, que é bem demarcada. 
Meu objetivo é chegar ao topo da crista à esquerda e para isso vou desprezando algumas bifurcações à direita e com o Sol se pondo no horizonte, já vou procurando lugares planos para acampar e antes de pegar o trecho mais íngreme e fechado da trilha, encontro um gramado perfeito para montar minha barraca. O lugar está a uns 10 minutos da linha férrea e sem nenhuma chance de encontrar alguma nascente, mas tudo bem; estava com bastante água, só o banho que terá que ser no dia seguinte. 
Local do acampamento
No início da noite outro trem passa pela linha férrea, mas que não chega a incomodar. 
A altitude aqui é de 910 metros e o jantar é uma mistura de carnes - atum e salame - com macarrão. A temperatura é bem agradável e pouco depois das 20:00 hrs me envio no saco de dormir colocando o celular para despertar por voltas das 06:00 hrs, já que o dia seguinte prometia ser bem longo e cansativo.
Foi fácil pegar no sono e pouco antes do celular despertar já estou colocando todas as coisas na mochila e preparando o café da manha. 
Barraca desmontada e mochila nas costas, as 06h50min sigo agora na direção norte cruzando a serra para o outro lado e passando por vários sulcos e com a trilha se dividindo em duas, mas voltando a se encontrar logo à frente. 
Primeiro contato com os muros de pedras na subida da serra

A vegetação é de cerrado com resquícios de mata atlântica e quando chego na encosta norte da serra, a paisagem se abre com Itumirim surgindo ao fundo. 
Aqui encontro um muro de pedras que em vários trechos dessa caminhada vou encontrar outros desses. Dizem que foram construídos pelos escravos para servir de divisão das terras nessa parte da região. 
Aqui novamente a trilha se divide em duas: para esquerda, uma delas segue junto do muro de pedras contornando a encosta sem ganhar muita altitude. A outra trilha se inicia junto de um descampado e segue por aclive íngreme em direção ao topo e seguindo por ela vou parando em alguns momentos para retomar o folego com a paisagem se abrindo cada vez mais atrás de mim (veja o vídeo aqui). 
Cruzeiros e uma armação de metal - uma antena talvez?
Esse trecho de subida é curto e depois de uns 20 minutos de subida íngreme chego no topo da serra. A vegetação aqui é de gramíneas e a vista é desimpedida para todos os lados. 
Ao norte está todo o percurso que fiz no dia anterior com Itumirim ao fundo e um cruzeiro com algumas antenas na crista. 
Ao sul a Serra de Carrancas surge como barreira bem ao fundo. Seguindo por trilha na crista em meio a vegetação de gramíneas chego no cruzeiro, que na verdade são dois, junto de uma armação de ferro com uma figura humana. 
A atitude aqui é de 1155 metros, mas não é o topo da serra ainda, que está um pouco mais ao sul de onde estou.
Depois de alguns clics volto alguns metros pela trilha e inicio uma descida íngreme na direção leste por trilha bem demarcada até chegar a outra trilha que cruza a serra de norte a sul. 
Trilha demarcada
Vou subindo por alguns metros até encontrar outra trilha na direção leste e é por ela que vou seguindo até chegar em uma mata ciliar, onde cruzo com um pequeno riacho as 08h20min. 
É o lugar perfeito para um refrescante banho e para reabastecer os cantis. Mochilas nas costas novamente, vou seguindo sempre para leste tendo a crista da serra do meu lado esquerdo para um pouco mais a frente cruzar outro riacho, mas esse separado por uma pequena porteira de metal. 
A trilha é bem demarcada e vou seguindo na direção de uma crista bem ao fundo. 
Passando por vários sulcos, ela não apresenta dificuldades para navegação e por volta das 09h30min alcanço a crista da serra com o Sol daquela manhã não dando trégua. 
O trecho daqui em diante é bem sossegado e com pouco menos de 1 hora desde o último riacho uma crista se alonga para o lado direito na direção sul, mas a trilha principal é sempre na direção leste. 
Fácil navegação
No acesso a essa crista, uma trilha surge a esquerda, como se estivesse descendo para o norte, mas é por poucos minutos e logo ela segue rumo leste (nesse ponto a trilha principal está um pouco escondida e é só procura-la atrás de alguns afloramentos rochosos  para seguir na direção leste. Como eu tinha pego a trilha que descia para o norte, caio em uma estrada de terra, passando ao lado de uma residência abandonada com uma placa avisando que o lugar é propriedade particular.
Seguindo em aclive suave pela estrada, logo chego a mais outra, que é bem mais usada, depois de uns 20 minutos. Parece que seguindo para direita se chega a algumas casas, mas meu caminho é seguir sempre para leste pela estrada de terra. 
A partir daqui estou saindo da Serra da Estancia e iniciando na Serra do Pombeiro.
Em meio aos eucaliptos
Em poucos minutos entro em um trecho de reflorestamento de eucaliptos, chegando em uma porteira do lado esquerdo e descendo para norte, mas o caminho que devo seguir é entre o muro de pedras e o reflorestamento de eucaliptos, que segue na direção leste. 
Aqui encontro as primeiras aves selvagens nessa caminhada: um casal de seriemas.
Mais alguns minutos e outro trecho de subida que leva a um reflorestamento de eucaliptos no topo do morro, mas dessa vez resolvo cortar caminho  pela vegetação de cerrado com alguns arbustos, na direção leste sem ganhar altitude. 
A trilha é demarcada no inicio, mas depois se perde em meio a vegetação e aí ela se torna mais instintiva, só no visual, cruzando com alguns afloramentos rochosos e mais outro muro de pedras de norte a sul, mas pelo menos não me canso tanto assim.
Capim prateado na crista
Uns 20 minutos depois desse trecho, saio em um enorme capinzal prateado. 
São os famosos campos rupestres e sem dúvida nenhuma é um dos trechos mais bonitos da caminhada (veja o vídeo aqui).
Mas é um trecho curto e logo chego em outro reflorestamento de eucaliptos pouco antes das 13:00 hrs, separado por uma cerca de arame, tendo que cruzar outra porteira. 
Aqui resolvo descansar um pouco e comer alguma coisa – a fome começou a apertar.
Depois de passar pelo meio dos eucaliptos, a trilha sai em campo aberto e alguns minutos à frente surge outro muro de pedras à direita e aqui não tem erro; é só seguir rumo leste na direção de mais um reflorestamento de eucaliptos, onde cruzo uma porteira de arame. 
Caminhando no limite do reflorestamento e junto de outro muro de pedras vou perdendo um pouco de altitude para depois cruzar outra porteira (veja o vídeo aqui). 
Serra de Carrancas ao fundo
Um grande afloramento rochoso surge à esquerda da trilha, onde cruzo outro muro de pedras de norte a sul e aqui já vai surgindo uma estrada no fundo do vale, ao sul e é lá que pretendo chegar, mas uma duvida surge: o que fazer? 
Seguir na direção leste para conhecer a Cachoeira do Raulino e depois voltar todo o trecho? 
Ou seguir direto para a estrada de terra? 
Na verdade eram várias duvidas que eu tinha no momento e pelo cansaço, pelo horário e pela distancia até a cachoeira (cerca de 5 Km) resolvo seguir para a estrada de terra e deixar a cachoeira para conhece-la em outra oportunidade. 
Abandonando a crista, vou seguindo para a direita na direção sul até encontrar o melhor ponto onde acessar a estrada e de lá seguir na direção sudoeste pela crista da Serra do Pombeiro.
Estrada pelo fundo do vale

E ao encontrar uma sombra junto da estrada, encosto o esqueleto para outro merecido descanso e quem sabe até conseguir uma carona que me leve até a crista ao sul, mas nada de algum carro passar e por isso retomo a caminhada até chegar em uma bifurcação, onde a estrada em frente segue para o alto da serra na direção sul. 
Mas sigo paralelamente ao fundo do vale e uns 15 minutos depois passo ao lado de algumas construções abandonadas e o mato tomando conta – aqui é a famosa Fazenda Pombeiro que ainda mantem a sede preservada. 
Uns 50 metros depois da entrada dela encontro uma trilha à direita que leva ao Ribeirão do Peixe. A altitude aqui é de 950 metros e pelo horário (16h30min) não penso 2x. É aqui mesmo que vou acampar, escondido um pouco da estrada e junto do rio.
Subindo em direção a crista da serra
Com quase 10 horas de caminhada, com certeza foi a melhor decisão que tomei. Montada a barraca, fui tomar um refrescante banho e assim que anoitece preparo o meu jantar para depois me enfiar no saco de dormir pouco depois das 20:00 hrs. Minha intenção era acordar o mais cedo possível para tentar chegar o mais próximo de Carrancas e finalizar essa travessia ainda na manhã seguinte ou até quem sabe hoje ainda.
A noite foi tranquila e pouco antes das 06:00 hrs já estava com a mochila nas costas e pé na estrada, seguindo em direção à crista da serra, que não estava muito longe. 
Com uns 20 minutos de caminhada, volto a caminhar ao lado de um muro de pedras que vai na direção da crista, onde chego as 06h40min, a tempo de presenciar os primeiros raios do Sol surgindo no horizonte (veja nesse vídeo). 
Crista da serra
Caminhando agora na direção sudoeste, a Serra de Carrancas aparece em toda sua extensão ao sul.
Mais uns 15 minutos de caminhada e a estrada começa a descer na direção do fundo do vale, rumo sul, mas junto a uma pequena porteira de madeira abandono a estrada e sigo pela crista em meio a uma trilha pelo capim ralo. Daqui consigo ver toda a Serra do Pombeiro e uma parte da Serra da Estancia a noroeste, por onde caminhei no dia anterior; ao sul os paredões da Serra de Carrancas e bem ao sudoeste a minha próxima serra: a do Galinheiro. 
Depois de uns 15 minutos pelo pasto, volto para a estrada, mas logo a frente uma boiada vem na minha direção; são umas 10 vacas e bezerros e passo no meio delas sem problemas.
Chegada ao Ribeirão do Maroto

Mais uns 10 minutos de caminhada pela estrada (pouco mais de 1 Km) e aqui saio dela para seguir por uma trilha à direita pelo pasto e que me leva até a uma área de reflorestamento de eucaliptos. Cruzando a porteira de metal, vou seguindo por trilha em meio aos eucaliptos para a direita até chegar ao limite do reflorestamento. 
A descida pela trilha sentido sudoeste é suave até chegar no fundo do vale, onde o Ribeirão do Maroto marca o final da crista da Serra do Pombeiro e o início da Serra do Galinheiro, do outro lado do rio.
São 08h30min e dá para visualizar uma trilha que sobe até o topo da Serra do Galinheiro e é lá que prendo chegar. A largura do rio é de aproximadamente 10 metros e junto de um poção cruzo ele sem dificuldades, pulando algumas pedras.
Sr. Carlos Roberto
Já do outro lado do rio vou subindo pela encosta na direção sudoeste em meio a vegetação de arbustos e cerrado até interceptar uma trilha um pouco mais acima, que segue de norte a sul, beirando a encosta. Procura daqui, procura dali e nada de achar a trilha que sobe em direção a crista e com isso resolvo seguir para a direita me levando até a sede da Fazenda Curralinho, onde encontro o Sr. Carlos Roberto, que é o proprietário. 
Senhor muito gente boa e até ficaria um bom tempo conversando com ele, mas as horas estão passando e preciso continuar minha caminhada.
Sobre a trilha para o topo da Serra do Galinheiro, ele diz que é bem fácil encontrá-la, mas chego a conclusão que vai me tomar muito tempo e provavelmente não conseguirei finalizar essa travessia até a manhã do dia seguinte em Carrancas. 
Trilha em meio aos eucaliptos
Tinha a intenção de conhecer as 7 Pedras (um tipo de monumento natural formado por pedras que foram esculpidas pelo tempo), mas analisando as opções que Sr. Carlos me passa, chego a conclusão que vou ter de conhece-la em outra caminhada. 
Foi uma decisão difícil, mas para não perder muito tempo nesse trecho da Serra do Galinheiro, ele me orienta a seguir direto para a Serra de Carrancas, passando pela Fazenda do Carlinhos e alcançar a crista em um local conhecido como "Beco".
Me despeço dele e ganho algumas laranjas de sua neta que estava de férias na Fazenda. 
São 09h40min e agora retorno pela mesma trilha que eu tinha vindo, seguindo na direção sudeste para cruzar uma enorme área de outro reflorestamento de eucaliptos e chegar na sede da Fazenda do Marquinhos. 
Porteira da Fazenda do Cedro
Assim que saio dos eucaliptos, cruzo um rio e chego na casa do Sr. Vinicius, que é funcionário da Fazenda. Quem me atende é sua esposa e perguntando o melhor caminho para a chegar na base da Serra de Carrancas, ela me orienta a seguir em direção a Fazenda do Cedro, que pertence ao Sr. José Junior. 
A caminhada novamente é por estrada de terra que liga a sede das 2 Fazendas e foi rápida.
Em 15 minutos chego na porteira da Fazenda onde encontro uma câmera apontada para a entrada e com uma placa dizendo que o local está sendo monitorado e vigiado. Ao chegar na sede da Fazenda, sou recebido pelo Sr. José Junior, que é de uma gentileza sem tamanho. 
Me recebe muito bem e até me oferece alguns lanches, que eu recuso. Só queria mesmo um pouco de água para reabastecer os cantis. 
Escarpas da Serra de Carrancas
Noto pelo seu sotaque que ele não é um autentico mineiro – diz que é um paulistano do Bairro do Bixiga e ao se aposentar veio morar por aqui, onde tem muito sossego, segundo ele. 
No momento em que cheguei ele estava fazendo algumas restaurações em um imenso caminhão.
Conversa vem, conversa vai, mas digo que preciso seguir minha caminhada e para chegar no topo da Serra de Carrancas ele me orienta a caminhar na direção sul, onde existe uma pequena casinha construída junto da encosta da serra, visível de onde eu estava. 
Agora são 11h30min e depois de agradecer a hospitalidade volto até a porteira da Fazenda, seguindo agora pelo pasto ralo na direção da encosta da serra, passando ao lado de um pequeno açude e de uma imensa boiada. 
A altitude aqui é de pouco mais de 1000 metros e devo chegar na crista, na altitude de 1270 metros. 
Subindo a serra
Subindo por entre a vegetação de cerrado, vou ganhando altitude com certo esforço devido a declividade ser um pouco alta, mas sem dificuldades de navegação. É quase que uma trilha em zig zags para evitar trechos mais íngreme ou com muita vegetação, já que não existe uma trilha demarcada.
O que eu faço é só ir galgando metro por metro até chegar na crista com quase 1 hora de subida, as 13:00 hrs.
Depois de um merecido descanso junto ao capim ralo, deixo minha mochila aqui e sigo na direção oeste, para o topo de um morro. É uma caminhada de uns 15 minutos cruzando outro muro de pedras para chegar no ponto mais alto dessa caminhada, de pouco mais de 1300 metros, onde tenho uma visão panorâmica da região, inclusive de todo o percurso que fiz até aqui. 
Encontro das Serras de Carrancas (E) e Galinheiro (D)
Um pouco ao sul o Pico do Cupim emerge isolado do restante da serra, cuja altitude é um pouco mais baixa de onde estou. 
Desço um pouco mais pela trilha do outro lado até alguns afloramentos rochosos, onde tenho uma visão mais próxima de toda a Serra do Galinheiro e por onde eu estaria caminhando, se tivesse tempo sobrando. 
Dá para ver nitidamente o “Beco”, assim como algumas trilhas que ligam as 2 serras e depois de vários clics, as 14h30min inicio o retorno até a mochila e de lá sigo na direção leste para finalizar essa travessia. 
Estrada sem fim

Já com a mochila nas costas, logo cruzo com outro muro de pedras e mais alguns minutos à frente, a trilha termina em uma estrada de terra consolidada e provavelmente muito usada pelo pessoal que pratica off road. 
Daqui em diante é um trecho longo com vários sobe morro/desce morro e às vezes tendo uma abertura na paisagem para perceber que Carrancas está ainda muito longe. 
Água não existe nesse trecho final e em alguns momentos a estrada segue próxima do encosta íngreme, do lado esquerdo, mas o que atrapalha é o Sol forte que castiga muito, já que em toda a Serra de Carrancas não se encontra uma sombra sequer.
Ao longo da estrada cruzo com algumas porteiras e muros de pedras e sempre acompanhando a crista arredondada da serra com lindos visuais.
Chegando no asfalto
Não consigo achar o final da estrada e isso me deixa um pouco preocupado, já que ao descer um morro, surge outro logo a frente com a estrada se perdendo no horizonte. 
E para piorar, o Sol daquele final de tarde é de matar.
Por volta das 17:00 hrs vejo a Rampa de Voo Livre e um veiculo ao lado. Pensei comigo: vou tentar uma carona de todo jeito, mas ao cruzar um muro de pedras, o veiculo já foi embora ou talvez ao me ver, preferiu sair rapidinho para não dar carona. 
Sabia que pelo horário, um ônibus estaria vindo de Lavras e passaria pelo final dessa estrada por volta desse horário e isso me deixava preocupado. 
Sem saber quando chegaria na Rodovia aumentei o meu ritmo da caminhada, chegando até a correr em alguns momentos.
Cheguei na Rodovia

Não era minha intenção acampar na crista dessa serra e muito menos seguir caminhando pelo asfalto até o centro de Carrancas (nem contaria com uma carona porque a noite logo chegaria). Tudo bem que era só descida, mas estava cansado demais e também não tinha muita água.
Mas consegui chegar exatamente às 17h28min na Rodovia e agora era só aguardar o ônibus passar em direção a Carrancas e para ter a certeza, perguntei a um morador local se o ônibus que vinha de Lavras já tinha passado, mas não. Ufa, que alívio.
Do outro lado da Rodovia vejo algumas placas de pousadas próximas, que podem ser boas opções de hospedagem, mas preferi conhecer o centro da cidade, por isso fiquei aguardando o ônibus.
E não precisei esperar muito tempo e logo ele chegou para seguir em direção à cidade. 
Agora era procurar uma hospedagem para passar a noite e a primeira opção era um camping próximo a Igreja Matriz chamado Camping Sossego do Jeca, que me arrependi de ter ficado nele.
Ruas do centro de Carrancas
Por estar próximo da Igreja, dava para ouvir os sinos batendo a cada 30 minutos. E quando marcava as horas, era pior ainda. O camping até dispõe de uma boa infraestrutura com lonas cobrindo algumas barracas e todo gramado, mas pelos sinos da Igreja não acho que vale a pena.
Depois de um belo banho quente fui em uma lanchonete próxima da Igreja Matriz matar a minha fome. Até procurei um restaurante com a típica comida mineira, mas naquela Quarta-feira a noite era difícil encontrar - me contentei com um X-Tudo com fritas e 1 suco na Lanchonete Café.com.
Fome saciada, voltei para o camping e na manhã seguinte teria de acordar bem cedo pois o ônibus em direção a Lavras sairia as 06h15min. 
A noite foi com muito vento e relativamente tranquila, tirando é claro as batidas do sino na Igreja.
Estrada Real passa aqui
Com barraca desmontada e depois de organizar minha mochila, sigo para a Praça Principal, onde tem um ponto de ônibus e aqui fico aguardando ele. Junto do ponto um pequeno cartaz oferecendo uma recompensa me chama a atenção. É de alguém que perdeu um drone na Serra de Carrancas e oferece $1000 Reais de recompensa para quem encontrá-lo. Tem até uma foto do aparelho no cartaz (veja nessa foto: clique aqui). É, quem perdeu teve um prejuízo grande.
E exatamente no horário o ônibus chegou, passando ainda por Itutinga e chegando na Rodoviária de Lavras por volta das 07h30min, a tempo ainda de embarcar para Pouso Alegre/MG, onde teria uma oferta maior de horários de ônibus para SP e com isso fui chegar antes do final da tarde no Terminal Tietê, mas não escapando do horário do rush daquela Quinta-feira.
Um resumo dessa travessia pode ser definido da seguinte maneira: caminhada sempre pela crista de várias serras alternando com pequenos trechos por estradas de terra e lindos visuais, mas extremamente cansativa. 
O que me decepcionou um pouco foi o trecho final por toda a Serra de Carrancas, que virou lazer do pessoal do off road e nenhum trecho com sombra na crista. Eram só estradas de terra. Uma pena.



Algumas dicas e informações úteis

# A empresa de ônibus que opera a maioria das linhas para Lavras é a Viação Gardênia:
www.expressogardenia.com.br

# Em Lavras, a linha de ônibus para Carrancas é pela empresa São Cristóvão:
www.vsc.com.br

# Para quem quer ficar em um camping no centro de Carrancas, mas não se preocupa com as badaladas do sino de uma Igreja - Camping Sossego do Jeca:
www.facebook.com/pages/Camping-Sossego-do-Jeca-em-Carrancas/893992597300589

# Creio que devo ter cruzado ou passado ao lado de mais de 1 dezena de muros de pedras. Foram construídos na época da escravidão pelos negros e fazem parte da história sombria de nosso país.

# Quem dispor de vários dias livres, compensa iniciar a caminhada em Lavras pela Serra da Bocaina e depois seguir sempre rumo leste, fazendo todo o circuito das 6 serras, incluindo a Serra do Galinheiro.

# A água não chegou a ser um item escasso nessa travessia. No início da Serra da Estancia cruzei com 2 riachos de água potável. E depois, próximo da Cachoeira do Raulino, onde acampei a segunda noite existe fartura de água. Também no início da Serra do Galinheiro existe um rio que antecede a subida da serra. 
Só senti falta de água na Serra de Carrancas, mas por ser o trecho final dá para levar uma quantidade até grande de água.

# Nos dois riachos da Serra da Estancia a água é de ótima qualidade. Já nos outros rios que cruzei recomendaria usar hidrosteril.

# A cidade de Carrancas dispõe de uma quantidade grande de cachoeiras e se dispor de tempo, vale a pena conhece-las também.

# Muito cuidado ao fazer essa travessia no verão. O Sol é muito forte e são raros os trechos com sombra. Eu não recomendaria de jeito nenhum. 

# Consegui sinal de telefonia celular da Vivo em vários trechos.

# Com vegetação de cerrado, essa caminhada permite lindos visuais panorâmicos e muitas vezes com navegação só pelo visual.

4 comentários:

  1. Vim aqui agradecer pelos seus artigos, fiz uso de dois relatos da volta da ilha grande mais seu gps. Completei a volta semana passada. Muito interesse seus relatos. Pretendo fazer uso futuros deles. E esse de Itumirim Carrancas está no meu raio de interesse no momento. Abraços

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  2. Oi Antonio, blz?
    Precisa agradecer não.
    A internet é para isso mesmo.
    Compartilhar informação. É um termo que ta na moda ultimamente.
    Legal que deu tudo certo lá em Ilha Grande.
    É lugar para conhecer praia de todo tipo.
    Qto a Carrancas, é uma travessia com um belo visual.
    A logística é um pouco complicada, mas vale o esforço.
    E precisando de um help, é só perguntar.

    Abcs

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  3. Essa Itumirim-Carrancas que você fez é o mesmo tracklog da Travessia da Chapada dos Perdizes? Passa pelas mesmas serras?

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  4. A Chapada das Perdizes seria uma continuação da Serra de Carrancas
    Ate pensei em faze-la,mas o visual não difere muito.
    Ela contorna a cidade pelo leste e depois segue na direção sul.
    Pode ser uma boa opção para quem dispõe de vários dias e gosta muito de caminhar.
    Para mim, no final da serra de carrancas já estava bom.

    Abcs

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